O Analfabeto Político
Bertolt Brecht
"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais."
Esse fim de semana a gripe resolveu me pegar de vez, também, com esse frio que tá fazendo aqui no Sul. Então, passei o "findi" em casa assistindo DVDs.
Assisti a um dos meus DVDs favoritos, dos 50 que eu tenho. Estou falando do dvd da mini-série "Anos Rebeldes", de Gilberto Braga, que passou na Rede Globo em 1992. A série se passa no Brasil durante o regime militar e mostra os diferentes caminhos dos personagens nesse período negro da nossa história recente.
Não sei se vocês sabem, mas fiz 3 semestres do curso de história na PUCRS, tranquei o curso para comçer o curso de jornalismo, mas minha paixão por história ainda continua, principalmente minha paixão por história do Brasil, mais especificamente, história contemporânea brasileira.
Comecei a interessar por história com uns 13, 14 anos, ainda no colégio, graças à uma ótima professora de história que tive, Ana Lúcia, hoje ela dá aula na faculdade da FAPA. Ela não dava a matéria apenas, mas também, promovia debates, nos fazia pensar questões do nosso dia a dia, época de eleições então, fazíamos debates, discutíamos sobre os partidos políticos, candidatos, etc.
Aos poucos fui me apaixonando por história, coisa que eu odiava. Alguns anos depois, com uns 16 anos, eu comecei a me interessar pelos anos 60 e depois de saber praticamente tudo sobre aqueles anos no mundo inteiro, resolvi a me concentrar nos anos 60 no Brasil. Tudo que eu sabia era que o Brasil estava em plena ditadura militar, mas só isso, eu era completamente leiga sobre Brasil nesse período.
Foi quando assisti uma peça de teatro, símbolo do teatro gaúcho, "Bailei Na Curva", se passa em Porto Alegre, e conta a história de um grupo de crianças que tem suas vidas completamente mudadas pelo golpe militar de 1964, a peça se desenrola durante o período militar e termina nos anos de abertura, a peça é maravilhosa e eu já assisti 7 vezes.
Foi aí então que resolvi saber como era o Brasil naquele período, na época eu estudava na ACM, com certeza está longe de ser um bom colégio de Porto Alegre, mas a bibliotecária era maravilhosa, me ensinou mais do que todos os professores da ACM. O nome dela é Kátia, e é aquele tipo de pessoa que chamamos de "bicho grilo", comecei a passar meus recreios inteiros na biblioteca, de papo com ela. Ela me contava que no período militar, ela era criança e os pais dela escondiam pessoas procuradas pela repressão, em casa.
Eu e ela tínhamos gostos muito parecidos, anos 60, Beatles, movimento hippie, etc...ela costumava dizer que eu nasci na época errada, e até hoje eu concordo pelnamente.
Um dia ela me disse que um bom livro pra eu entender a vida das pessoas nesse período do Brasil, era o "O Que É Isso Companheiro" do Fernando Gabeira, na época eu não li o livro, li anos depois, já na faculdade, mas vi um outro que me chamou atenção, era um livro de capa vermelha, envelhecido, tinha dois exemplares na biblioteca, o livro chama "Brasil Nunca Mais", de D. Paulo Evaristo Arns.
A primeira vez que li o livro eu fiquei completamente chocada com o que nele continha, chorei várias vezes e me revoltei também. O livro tem centenas de depoimentos de ex-presos políticos, falando das mais terríveis torturas que eles sofreram enquanto tiveram presos.
Li o livro dezenas de vezes e logo depois comprei um exemplar pra mim.
Então resolvi me aprofundar sobre esse assunto, achei um livro na biblioteca que falava sobre pessoas que foram mortas sobre tortura, e entre muitas pessoas, teve um que me chamou atenção, até hoje eu não sei explicar o porque. O nome dele era Eduardo Collen Leite, seu nome de guerra era "Bacuri".
A história dele é impressionante, triste mas insipira e ensina.
Um rapaz, mineiro, que foi morar ainda criança em São Paulo, entrou na luta contra a repressão em 1968, e se tornou um dos revolucionários mais importantes do Brasil, na minha opinião.
Lutou com todas as forças contra aqueles que acabavam com todas as liberdades e direitos no Brasil. Em 1970 ele seqüestrou o cônsul japonês e o embaixador alemão, ações que eram feitas para libertar companheiros que estavam sofrendo sob tortura nas prisões. Ele era odiado pela repressão e estava jurado de morte, tinha mais de uma morte nas costas. Ele era casado cum uma revolucionária, Denise Crispim, com quem ele teve uma filha, chamada Eduarda, que infelizmente ele nunca conheceu.
Bacuri foi preso no fim de agosto de 1970, com 25 anos, foi torturado por 109 dias, e na minha opinião, foi o preso político que mais sofreu nas mãos de seus algozes.
As torturas sofridas por ele são inimagináveis e só de ouvir, insuportáveis para qualquer ser humano, agora imaginem, ele ser torturado por 109 dias e ainda não falar nada, não deu um nome, um endereço, nada, para maior revolta de seus torturadores, o chefe deles, o delegado Sério Fleury, um elemento que, creio eu, deve estar no inferno.
Bacuri foi morto em 8 de dezembro de 1970, com uma machadada, isso depois de lhe quebrarem os braços e pernas, lhe vazarem os olhos, arrancarem os seus dentes e unhas e claro, os "usuais" choques elétricos, queimaduras, pauladas e todo tipo de violência que uma pessoa pode sofrer.
A filha de Eduardo nasceu em outubro, mas ele infelizmente nunca a conheceu.
Depois que conheci a história do Bacuri, me atirei de cabeça aos estudos sobre esse período do Brasil e mais precisamente sobre os movimentos de resistência à ditadura. Posso dizer que aprendi muitas coisas com esses companheiros que tanto sofreram por nossa liberdade, assim como Bacuri, Lamarca, Marighela, Chael, Wladimir Herzog, Ana Nacinovic, etc...e muitos, muitos outros. O que mais me revolta, é ver a juventude de hoje jogar na lixeira aquilo que eles tanto lutaram e deram suas vidas para conquistar para nós.
É doloroso dizer que a minha geração é a mais acomodada das últimas décadas, salvo aqueles que ainda lutam por seus ideais.
A quem pense que seu dever maior de civilidade é ir votar nas eleições, mas dependendo da sua participação política, isso pode ser até um erro. Tem gente que só vota porque é obrigatório e por isso vota na pior opção possível e depois ainda se acham no direito de se revoltar com os políticos que tanto nos passam a perna. Ora, se não se interessa acha que tem o direito de reclamar? eu penso que para ter direito de reclamar, tu tem que, antes, mostrar o que quer e lutar por isso, fazer por onde.
Quando ouço alguém dizer "eu odeio política", "políticos são todos iguais, corrúptos e ladrões", ou ainda defende um lado sem realmente saber algo sobre o outro, isso se chama INFLUÊNCIA, ou melhor, MÁ INFLUÊNCIA. Mas infelizmente as pessoas parecem que gostam de ser cegas, afinal, o pior cego é aquele que não quer ver. Deve ser mais fácil ficar só nos seus "deveres", estudar, trabalhar e pronto, nada mais é preciso. O brasileiro, infelizmente tem outras coisas para se preocupar, como futebol, novelas, ou casos cotidianos que uma vez ou outra são destacados pela imprensa como se fosse uma coisa inédita, um exemplo? o caso da menina Isabella, horrível o que aconteceu, concordo, mas quantas Isabellas são maltratadas e mortas todos os dias? e a Globo NUNCA falou nada, porque será? é fácil controlar o povo quando ele é alienado, mas uma vez ou outra é bom dar um toque de realismo, isso me enoja.
O caso Isabella foi uma novela absurda, a imprensa usou e abusou do caso, teve programas que ficaram SEMANAS falando somente disso, todos os dias, como se não tivessem outras catastrofes acontecendo pelo mundo, como se não soubéssemos como tudo acabaria, tanto que hoje ninguém mais fala nesse caso. É fácil dizer que
"está por dentro" quando surge um caso desse tipo, começa a ler tudo relacionado a isso, ver notícias em jornais e na tv, se informar, mas isso não é ser informado, muito pelo contrário, é ser influenciado.
Quer ser informado? então leia TODOS os dias um jornal, todas as seções, passando por páginas políciais, política, esportes, cultura, entretenimento, isso é estar por dentro, ou como eu prefiro dizer, se intelectualizar. Eu faço isso, todos os dias vou no site do jornal Zero Hora, leio toda edição impressa na internet, é possível sabiam?. Sempre que ligo meu computador, os primeiros sites que vou são, Terra, Uol, Globo.com e ClicRBS, para ver todas as notícias e estar por dentro de tudo.
O estado do RS está no meio de uma crise política, mas não vejo ninguém comentando disso no ônibus, bares, nas ruas, etc...como faziam com o "caso Isabella", e porque? alguém viu uma notícia de destaque sobre isso no Jornal Nacional ou em qualquer outro programa jornalístico influente? NÃO, simples, eles sabem manipular, para que só nos interessemos pelo que lhes convém, e o pior é que fazemos exatamente o que eles querem, e ainda dizem que o Brasil não vai pra frente por causa dos políticos corrúptos. O dia que tivermos um povo que pense menos em gastar rios de dinheiros em festas para santos, veja menos novela, se interesse mais pelo que acontece a sua volta, o Brasil será bem melhor.
Vejam bem, eu vejo novela, adoro Carnaval, futebol é uma de minhas paixões, mas não me digo uma pessoa alienada, porque consigo falar de qualquer assunto, modéstia a parte, graças aos meus pais que sempre me ensinaram a ser uma pessoa de mente ampla e pensamentos inteligentes. Sei que existem coisas mais importantes para se inteirar, como eu disse antes, a crise no governo estadual é uma dessas coisas, até agora não encontrei ninguém que tivesse uma opinião boa sobre o que aconteceu, claro, afinal ninguém se interessou, ninguém quis saber, o brasileiro se acostumou com esses escândalos políticos, e digo, a culpa é dos próprios brasileiros, se acostumaram, acham que é normal, e nada fazem para mudar isso e depois ainda tem a cara de pau de dizer que políticos é tudo igual, ERRADO, brasileiro é tudo igual, com raras excessões, eu espero ser uma delas.
Na verdade encontrei algumas pessoas com quem pude debater sobre esse assunto, uma delas é a minha mãe, acho que por sempre ter assuntos variados debatidos dentro de casa, eu posso dizer que sou uma excessão, assim espero.
Esse ano é ano de eleições no Brasil, iremos eleger nossos prefeitos e vereadores, eu estou com meu voto praticamente decidido, mas não completamente, ainda estou analisando de tudo um pouco, não quero me arrepender de uma escolha errada, espero que quem ler esse GRANDE texto também analise e pense bem sobre sua escolha, não só nessas eleições, mas sobre inúmeras outras coisas. Um sábio já disse que não é o que temos que mostra quem somos, mas sim nossas escolhas.
Ainda usando o gancho das eleições, espero mesmo que pensem MUITO bem. A propaganda do governo nacional este ano está maravilhosa e é muito inteligente. Pense em pessoas como o Bacuri que citei antes, não jogue fora o direito que eles tanto lutaram para conquistar para nós.
To vendo que preciso me disciplinar sobre outra coisa. Preciso aprender a fazer textos menores, hehehe.
Eu já estava deitada, pronta para durmir, quando do nada veio uma vontade louca de escrever, então, simplismente me deixei levar pela inspiração.
O texto a cima, em vermelho, traduz bem o que eu escrevi, leiam e pensem...PENSEM!!!
Beijos
